AMIGOS DE DELMIRO GOUVEIA

César Tavares abre suas malas cheias de recordações e lembranças dos tempos passados em Delmiro Gouveia, uma cidade sertaneja de Alagoas, de sua gente e dos fatos do cotidiano. E faz um convite aos visitantes para abrirem também as suas malas, baús, gavetas e álbuns; e retirar: histórias, causos, e fotos do passado e do presente delmirense.



Quarta-feira, Abril 20, 2005

PURO ACASO.



7 de setembro/1975 Trinta anos atrás: César, Augusto e Borracha


abril/2005 trinta anos depois: com o Renato Boroh e Augusto


abril/2005

PURO ACASO

Saindo bastante atrasado para o trabalho. Pego ao meio-dia, e faltavam quinze minutos. E eu ainda no meu subúrbio. Abro o portão do prédio, mal caminho alguns passos, passa um carro em velocidade com três homens dentro.

O carro pára repentinamente. E alguém acena me chamando. O primeiro pensamento: assalto. Afinal em quase todos os bairros do grande Recife não se tem mais sossego e tranqüilidade. Faz parte da rotina. E na Cidade Universitária não se foge a regra.

Coração batendo mais acelerado. Mas não hesitei. Aproximei-me do carro. Um rapaz que ia no banco de trás e debruçado pela janela pergunta: Você sabe quem é César? Eu respondo: Sou eu. Então o condutor do veículo fala: diz porra não está conhecendo a gente não?

Depois do susto inicial vi que era o Augusto Bandeira. Logo em seguida desceu do carro para os devidos cumprimentos o Renato Boroh. Não o identifiquei de imediato. O terceiro rapaz era o Tony.

O Augusto foi colega meu de ginásio. O Renato é um delmirense e colaborador dos antigos sites www.amigosdedelmirogouveia.hpg.com.br e www.blocodopompeu.ubbi.com.br . Bloco do qual ele foi um dos fundadores. Conheço os dois há mais de 30 anos. É muito tempo.

A coincidência se deu pelo seguinte:

O grande Recife é um conjunto de 14 cidades com uma população beirando os três milhões e meio de habitantes.

Moro numa rua transversal, que não é calçada e sem grandes movimentos de carro.

Eles estavam vindo de Camaragibe, e estavam voltando para Delmiro. Disseram para que eles cortassem caminho pela Cidade Universitária e entrasse numa rua próxima a que moro e que é asfaltada. Os camaradas entram na rua errada, e numa hora em que habitualmente eu não estaria por ali. E o mais estranho eles disseram que vinham falando no meu nome. E o Tony dizia: eu não conheço este César não. Quando de repente o Augusto olhou para o lado e disse: olha César ali!!!!!!

Como eu estava com a câmara na bolsa não tive dúvidas em registrar a tremenda e feliz coincidência em encontrar estes amigos delmirenses. E disse: Isto merece um post no blog. Eles estavam a trabalho. O Augusto é funcionário da Fábrica da Pedra e lida com comércio exterior. O Boroh trabalha com consultorias de empresas. E o Tony, filho do famoso Fred Clóvis, e estava assessorando os mesmos.

E aí leitores. É ou não é uma tremenda coincidência? E você já viveu alguma situação semelhante assim? Conte. por aqui. Deixe o seu recado.

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postado por: <$César Tavares$> 6:05 PM


Terça-feira, Abril 12, 2005



PICHAÇÕES.

OPERÁRIO VOCÊ É EXPLORADO.


LEIA O MANIFESTO DE 1848.


LUA MORTA
RUA TORTA
TUA PORTA.


Quem lembra destas frases aí acima? Estas foram as primeiras pichações que vi em Delmiro Gouveia. Antes disto só havia pichações com slogans, número ou nome de candidatos em eleições. Uma chatice só.

Mas estas não. Eram diferentes. A primeira ¿Operário você é explorado¿ foi pichada no muro da fábrica, no lado que dá para a praça. Hoje não há mais o muro. E sim uma grade.
As outras frases apareceram nas paredes da igreja e outros muros.

Era tempos bicudos. Acho que isto foi por volta de 1978. Ainda havia a Lei de Censura à Imprensa, a Lei de Segurança Nacional e a anistia política ainda não tinha sido realizada. O General-Presidente era o Geisel. Bem naqueles tempos o regime já dava seus primeiros sinais de fraqueza. E isto era traduzido com um eufemismo: Abertura lenta, gradual e segura preconizava o pastor alemão.

Eu achei o maior barato quando vi as pichações. Achava um ato de rebeldia interessante. E acho que no fundo eu também tinha vontade de fazer aquilo. Mas nunca fiz. Era algo muito desafiador e contestador.

Hoje vejo muitos rabiscos sem sentido nas paredes recifenses. Geralmente é a maneira que as galeras encontram para delimitar seus territórios. Acho uma grande bobagem. Mas é a forma de expressão que eles encontram para suas insatisfações ou anseios. Bem análise social não é a função deste blog. Para isto existem fóruns mais adequados e qualificados.

Voltando para o microcosmo delmirense. Ficou o maior zum-zum na cidade para descobrir quem tinha feito tal ato. A direção da fábrica providenciou logo a limpeza das que havia em seu muro.

Passado pouco tempo todo mundo sabia quem era o autor. Mas todos guardavam segredo. E falavam a boca pequena. Enfim um segredo de polichinelo. O autor era o Gilmar Cabeção. Ele era irmão do Juarez e filho do João Vieira. Seu pai era um dos poucos caminhoneiros que havia naqueles tempos. E era um pai tão rigoroso que não deixava os seus filhos usarem nem bermudas e nem sandálias havaianas. Ele dizia que isto era coisa de cabra-safado. Obviamente que quando o pai estava nas longas viagens pelos lados de São Paulo, que o Gilmar não respeitava estas regras.

O Gilmar tinha ido morar em Vitória no Espírito Santo, e estudar Economia. E até então quando morava em DG, era um sujeito um pouco tímido. Mas após voltar nas férias o camarada voltou aloprado. Aprontou um bocado. No fundo gente boa. Conversa inteligente. Enfim um gozador.

Não o vejo há uns 25 anos ou mais. Um quarto de século. Mas guardo boas lembranças dele.

Por anda o Gilmar Cabeção? Você tem notícias dele? O que mais você lembra do Cabeção? Ainda recordava destas pichações? E na sua cidade qual foi a primeira pichação interessante que você viu? Apareceram outras pichações criativas em DG. Quais? Deixe aqui o seu recado. Participe.

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postado por: <$César Tavares$> 5:32 PM


Segunda-feira, Abril 04, 2005


Rua da Matriz/junho de 1997. Onde morava meu avô.
Os fatos narrados abaixo são bem anteriores a foto. Na época a igreja ainda estava em construção.
A casa do meu avô, nesta foto, encontra-se encoberta. Hoje a arquitetura da rua e da pracinha estão bem diferentes.


VALHEI-ME

Para: Tia Helena

Autor: Edmo Cavalcante



Valhei-me minha Nossa Senhora
Chegou por essa região
Uma notícia de arrepiar
Por uma boca só o povo ta falando
O MUNDO VAI SE ACABAR
Na feira outro assunto não se dá atenção
Se pegue com Padinho Ciço e Nosso Senhor se quiser
Escapar dessa
Pelo que o povo diz esse é um conselho de Frei Damião
Corra logo na feira não perca tempo não
Compre uma cruz de palha pregue na porta de sua casa
Reze o terço completo se pegue com tudo que é santo que o valha
Compre também carvão
Enterre bem no chão. São três pedaços, não esqueça de fazer uma oração
O carvão é prá enterrar na cozinha. Se não tiver jarra poder embaixo da quartinha
Valhei-me minha Nossa Senhora que notícia desmantelada
Veio chegar por esse sertão
Pode até ser boato
Mas é bom se cuidar: muita reza, cruz de palha e carvão
É melhor não confiar!

Comentário Geral:

O texto acima é do Edmo Cavalcante. O fato narrado em forma poética é verdadeiro. Eu lembro perfeitamente.

Naqueles tempos(início dos anos 70) o misticismo ainda era muito grande no sertão. E não se sabe de onde surgiu o boato que o mundo iria se acabar. Diziam que Frei Damião tinha dito que a casa que não tivesse três pedras de carvão embaixo do pote da cozinha estava condenada. E tome gente a arrebentar piso e cavar em busca destas pedrinhas. Como se já não bastasse a lenda que do ano 2000 ninguém escaparia.

Era lasca. Um terrorismo danado para nossas cabecinhas infantis. Nesta época eu morava na casa do meu avô. E por lá ele não embarcou nesta onda não. Foi um dos poucos.

No entanto, salvo engano, o Edmo traz uma versão um pouco diferente. Creio que não era para comprar o carvão. Era para que em cada casa se cavasse embaixo do pote(jarra) e teria que se encontrar três pedras de carvão. E com estas pedras fazer uma cruz na parede frontal da casa. Assim aquele lar estaria protegido contra o fim do mundo. E se não tivesse pote que se cavasse embaixo do local onde ficava a quartinha (um pequeno vasilhame de barro onde se colocava a água para esfriar)

As cruzes de palhas de coqueiro eram utilizadas em outra ocasião. As pessoas no Domingo de Ramos levavam palhas para serem abençoadas pelo padre na hora da missa. E com estas palhas as pessoas confeccionavam pequenas cruzes, bem simples, e as colocavam coladas na porta da frente. Desta maneira ficariam livres de todo os males. Amém.

E aí você ainda lembrava destes fatos? Ou ao menos ouviu falar nisto? Será que ainda é possível se encontrar nas portas das casas mais simples a cruz de palha? Ou este costume também se acabou? E você que não morava em Delmiro Gouveia, conhece alguma lenda urbana parecida com esta? Você também tinha medo que o mundo se acabasse no ano 2000? Deixe o seu recado. Participe.

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postado por: <$César Tavares$> 5:00 PM



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