AMIGOS DE DELMIRO GOUVEIA

César Tavares abre suas malas cheias de recordações e lembranças dos tempos passados em Delmiro Gouveia, uma cidade sertaneja de Alagoas, de sua gente e dos fatos do cotidiano. E faz um convite aos visitantes para abrirem também as suas malas, baús, gavetas e álbuns; e retirar: histórias, causos, e fotos do passado e do presente delmirense.



Quarta-feira, Novembro 24, 2004



Para não dizer que não falei das flores.(música de Geraldo Vandré)


Ano 1972 Alguns fatos.

Cenário Mundial: A Guerra do Vietnã se aproxima do fim. Henry Kissinger, secretário de estado americano, negociava nos arredores de Paris, uma saída honrosa para os EUA. Na Olimpíada de Munique 12 atletas israelenses eram feitos reféns e depois mortos por militantes da OLP. Nixon visitava à China.


Cenário Nacional: Imperava o auge da ditadura militar. Governo Médici. Imprensa censurada. Lei de Segurança Nacional. O capitão Lamarca, talvez a figura mais conhecida da resistência de esquerda, já havia sido assassinado no sertão da Bahia. Gil e Caetano voltavam do exílio londrino.


Cenário delmirense: Eu fazia a 4ª série primária no Grupo Escolar Francisca Rosa da Costa. A escola tinha apenas quatro salas de aula. Diretora: Teresinha Bandeira. Professora: Sônia Camilo.

Eu uma criança naturalmente não sabia nada do que rolava pelo mundo e muito menos no país. Os anos de chumbo caiam no lombo do povo. E a abertura lenta, gradual e segura ainda nem era projeto. Isto só viria acontecer nos anos Geisel. Mas aí já é outra história.

Certa vez, a palavra subversivo, foi pronunciada de maneira baixa, sussurrada e entreolhando para os lados. Assim como comentavam que alguém estava com câncer. Era algo mais ou menos assim: Os filhos do Sr. Leite e do Sr. Dom foram presos em Recife. Isto ouvi ali na casa do meu avô: Rua da Matriz, 222.

Creio que eles militavam no movimento estudantil. Nunca soube o que eles tinham feito de fato. Mas sei que: subversivo era algo muito grave. Aliás, se algum leitor que os conheceu, quiser contar a história por aqui. Ficarei bastante grato. Matarei a curiosidade infantil.

Mas aqui estou a tergiversar. Voltando ao Grupo Escolar.

Enquanto tudo isto acontecia, lá estávamos nós na frente da escola, todos trajando camisa branca com o escudo da escola no bolso, calças curtas ou saias azul-marinho, meias brancas e os inesquecíveis e confortáveis sapatos conga nos pés. Hasteando a bandeira, mãozinhas em cima do peito esquerdo a cantar em altos brados o hino do sesquicentenário da independência. Era isto mesmo. Fazia 150 anos que o D.Pedro tinha soltado o brado do Ipiranga.

E não é que este hino de tanto ser cantado. Afinal todas as quintas-feiras cumpriam-se o ritual. Que até hoje permanece em minha memória. E às vezes me pego inconscientemente cantando-o. Isto que é foi uma lavagem cerebral bem dada. O detalhe interessante era que se alguém fizesse alguma gracinha ou saísse do tom, levava umas chocalhadas na cabeça. A Teresinha não perdoava. Eu nunca levei. E bom deixar isto bem claro. (risos).

Bem será que você também lembra do hino? Então relembre. Eis aí o dito cujo.

Hino do Sesquicentenário da Independência
(Canção de Miguel Gustavo)

Marco extraordinário
Sesquicentenário da independência
Potência de amor e paz
Esse Brasil faz coisas
Que ninguém imagina que faz
É Dom Pedro I
É Dom Pedro do Grito
Esse grito de glória
Que a cor da história à vitória nos traz
Na mistura das raças
Na esperança que uniu
No imenso continente nossa gente, Brasil

Sesquicentenário
E vamos mais e mais
Na festa, do amor e da paz
(Bis)

Bis tudo de novo
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postado por: <$César Tavares$> 2:35 PM


Domingo, Novembro 21, 2004

VOCÊ TAMBÉM SE EMOCIONOU COM LOVE STORY?

Quem era adolescente nos anos 70 em Delmiro Gouveia e que não assistiu Love Story? Você também chorou ao sair do Cine Pedra? E no dia seguinte ao chegar ao Ginásio quais eram os comentários a respeito do filme que os seus colegas faziam?
Era um filme um tanto piegas. Mas confesse até hoje você lembra dele não? Caso queira matar as saudades do passado basta procurar o DVD em qualquer boa locadora. Mas talvez você não se emocione tanto quanto na época. Então deixe apenas a boa recordação guardada em sua mente. Não tente reviver algo que mexeu tanto com você.



Love Story - Uma História de Amor

Sinopse

Oliver Barrett IV (Ryan O'Neal), um estudante de Direito de Harvard, conhece Jenny Cavilleri (Ali MacGraw), uma estudande de música de Radcliffe. Um rápido envolvimento surge entre eles, sendo que logo decidem se casar. No entanto, Oliver Barrett III (Ray Milland), o pai do jovem, que é um multimilionário, não aceita tal união e deserda o filho. Algum tempo depois de casados ela não consegue engravidar e, ao fazer alguns exames, se constata que Jenny está muito doente.



Premiações-

Ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora, além de ter sido indicado em outras 6 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Ryan O'Neal), Melhor Atriz (Ali MacGraw), Melhor Ator Coadjuvante (John Marley) e Melhor Roteiro Original.

- Ganhou 5 Globos de Ouro, nas seguintes categorias: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz - Drama (Ali MacGraw), Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora. Foi ainda indicado nas categorias de Melhor Ator - Drama (Ryan O'Neal) e Melhor Ator Coadjuvante (John Marley).

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postado por: <$César Tavares$> 5:08 PM


Quinta-feira, Novembro 18, 2004

CUBA LIBRE


Por volta dos 15 ou 16 anos de idade, era quando o rapaz ou a moça começava a freqüentar os bailes ou saraus delmirenses, que rolavam no Clube Vicente de Menezes ou no Palmeirão. Ora indo-se a bailes é natural o primeiro contato com bebidas.

O primeiro gole de cerveja na vida ninguém esquece. Aquela coisa amarga descendo pela garganta, e a pessoa fazendo aquela cara que está gostando.

O que não se faz para bancar o adulto. Fingir faz parte da coisa. É o ingresso para o mundo dos adultos. Aqui começa o longo aprendizado da hipocrisia. Depois é natural na espécie humana o contínuo aperfeiçoamento desta arte.

No entanto o primeiro gole de cuba-libre, não parecia ser tão desagradável assim. Talvez pelo acentuado do refrigerante disfarçando o sabor acre do rum. Tudo bem no dia seguinte geralmente batia uma tremenda dor no fígado e na cabeça.

Com o passar dos anos alguns vão refinando o paladar para bebidas. Ou até abominando as mesmas.

Eu particularmente bebo pouquíssimo. E há uns 23 anos que não tomo uma Cuba Libre. Mas ainda lembro da primeira vez que bebi. Saudade. Politicamente incorreta, mas mesmo assim saudade.

E aí você lembra do seu primeiro gole? Onde aconteceu? No Vicentão? No Palmeirão? No Bar do Carioca? No Bar Caracol? No Bar do Maninho Cabeção? No Bar do Lula Braga ou no Bar da Tripa?

É o Day After como foi? Conte aqui a sua história de iniciação etílica.

Receita de Cuba Libre

Ingredientes:
1 limão
2 doses de rum leve
Coca-cola ou Pepsi Cola

Modo de Preparo:
Esprema o limão num copo e deixe cair as metades da fruta. Soque-as e junte cubos de gelo. Adicione o rum e complete com a Coca-cola ou Pepsi. Mexa bem e sirva.

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postado por: <$César Tavares$> 4:22 PM


Terça-feira, Novembro 16, 2004

Sabores Perdidos na Infância



Quem era a criança delmirense que não gostava de K.Suco? Ahhhh vai dizer que você nunca bebeu? Se não bebeu era porque você era bem de vida. Eu já bebi um bocado. E confesso que gostava.



E balas Juquinha antes de começar a sessão de cinema? Nunca comprou? Nem pedia para seus pais comprarem quando eles saiam para fazer compras? E Vai dizer também que nunca chupou um pirulito Zorro? Então você não foi criança. E nem morou em Delmiro Gouveia.
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postado por: <$César Tavares$> 4:30 PM


Domingo, Novembro 14, 2004



DE MÉDICO E LOUCO TODO MUNDO TEM UM POUCO

Toda cidade tem algumas pessoas que fogem dos padrões ¿normais¿, algumas delas são chamadas de loucas. No entanto cada uma delas tem uma história de vida. Geralmente desconhecemos a ¿origem de sua loucura¿.

Na nossa infância ouvimos histórias a respeito dos loucos locais, e sentimos um certo temor destas pessoas. Há muita invencionice e folclore. Nada provado obviamente. Mas a tradição permanece e passa de geração a geração.

Da minha infância delmirense lembro de alguns:

CHICO DO BERIMBAU.- Um rapaz moreno, magro, baixo e meio curvo, e que levava para todo canto um tosco berimbau. E ficava tocando-o encostado no ouvido. Quase não falava. Mas quando a meninada de forma perversa o apelidava de Tarzan ou Bilu Tetéia, choviam pedras para todos os lados. Diziam que ele foi trazido da cidade de Pão de Açúcar, e que por lá residiam alguns parentes seus. Eu particularmente morria de medo delo.
Ele costumava fazer seu ponto na calçada da casa do Sr. José Raul, ali onde hoje é o Banco do Brasil.

BAU ¿ Tinha este nome por apenas balbuciar. Não falava nada inteligível. Fedia muito. Não tomava banho e andava maltrapilho. Periodicamente pegavam-no e davam um banho forçado. Mas era um doido-manso. Não metia medo. O grande divertimento era quando alguém passava próximo dele e falava: Bau dá um tiro. Ele respondia bem alto peiiii peiiii. Praticamente era a único som que conseguia pronunciar.
Ele geralmente ficava ali na Rua dos Correios, pelas proximidades da venda do Sr. Antonio Perna Santa.

AMÉRICO CARVOEIRO - Um senhor alto e barbudo. Suas roupas eram negras da fuligem do carvão que vendia. Fedia muito. Sua característica marcante era que ele tinha um excelente vocabulário. Falava muito bem. E não sei a veracidade. Mas ouvi muitas vezes minha mãe falar, que ele foi estudante de medicina. E que a sua loucura foi proveniente de uma desilusão amorosa! A sua figura metia medo na meninada. Ninguém mexia com ele. E quando passava pelas ruas, geralmente havia um certo temor da meninada.

SIVINHA Era filho do Sr. Aristides Preto, morava naquelas casas que ficam por trás do prédio da atual prefeitura. Naqueles tempos, ali era um terreno baldio, e havia algumas algarobas. O Sivinha passava os dias consertando um carro de madeira. Ele era um sujeito forte e corpulento. Tinha o raciocínio de um criança de uns 5 anos de idade. E o seu sonho era tornar-se um caminhoneiro. Sempre falava que iria comprar um caminhão para viajar para S.Paulo. Seu apelido era Mussolino. E quando provocado além de falar um monte de palavrões, jogava pedras também.

MARIINHA era filha do Zezinho Barbeiro, e morava quase em frente a minha casa, na Rua Augusta. Talvez não fosse louca, e sim apenas não tinha controle sobre a bebida. Pois quando isto acontecia, ela andava pelas ruas cantando em voz alta e levantando as roupas. A meninada se divertia com isto. Diziam que ela era uma pessoa que levava uma vida normal. E que havia ficado assim, após o rompimento de um noivado. Casamento já marcado e tudo. Estranho isto. A história dela era um pouco parecida com a do Américo Carvoeiro. Talvez os tempos realmente fossem outros. As pessoas perdiam o juízo por amor. Fato raro hoje em dia.



Estes eram alguns dos loucos que povoam as minhas lembranças delmirenses.Outros surgiram depois.

A Rouse Vilar, uma amiga do Orkut, conta por lá que na sua infância ela morria de medo de uma senhora chamada ISAURA, que andava pela rua do ABC, diziam que ela virava lobisomem. Portanto a Rouse se pelava de medo, quando a via.

O Monteiro Mafra, meu primo, lembrou no outro site homônimo deste(no hpg) da SOCORRO DOIDA, uma mulher que andava pelas bandas da Vila Operária, e que uma certa vez, matou um uburu e o cozinhou. Diz ele que foi um fedor infernal.

E aí será que há novos loucos na cidade? Conte uma história para gente.
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postado por: <$César Tavares$> 3:21 PM


Quinta-feira, Novembro 11, 2004



SUGISMUNDO

Televisor preto e branco. Em cores ninguém na cidade ainda possuía. Quem não corria para a sala quando ouvia a voz do Sugismundo?

O Sugismundo era o protagonista das campanhas educativas, incentivando higiene e limpeza, lançadas pelo governo federal.

Creio que naqueles tempos bicudos de ditadura militar talvez ele fosse a única coisa suave, engraçada e simpática.

Saudades do Sugismundo.

E aí você ainda lembrava dele?

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postado por: <$César Tavares$> 3:45 PM


Quarta-feira, Novembro 10, 2004


KICHUTE. EU TIVE UM. E VOCÊ?

Isto é um Kichute. Lindo o designer não?

Apenas uma chuteira com travas de borrachas. Duro que só a gota serena. E pensar que isto já foi moda. Quem não calçou um destes nos anos 70?

No colégio fazia parte da farda. Acredite se quiser tinha gente que ia para os saraus ou bailes nos clubes delmirenses calçado com um bicho destes. E ainda abafava.

Nestes tempos de grife e de tudo o que é marca, olhar para o passado torna-se hilário. Ele nos assombra por vezes.
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postado por: <$César Tavares$> 6:07 PM


Quinta-feira, Novembro 04, 2004


Zé é a noiva segurando o estandarte.

UM CERTO ZÉ

Falar sobre pessoas que obtiveram destaque no cenário social delmirense é fácil. Há muita gente talentosa. E certamente isto será falado por aqui no momento oportuno.

No entanto toda cidade tem seu lado underground. E seus personagens meio que execrados pelo senso comum mais conservador. No entanto estas pessoas fazem parte do acervo de recordações. E não acho justo esquecê-las.

E com a cidade de Delmiro Gouveia, não é diferente. Por isto este post é dedicado a uma dessas pessoas: Zé Mulher.

Zé Mulher era uma pessoa corajosa. Corajosa mesma. Porque alguém há 30 anos atrás em pleno sertão das Alagoas se assumir homossexual era um ato de ousadia e desafio. Pura coragem. Coisa para macho nenhum botar defeito.

Era um sujeito magro, moreno e meio calvo. Não tinha ares e nem jeito feminino. Carregava sim nos trejeitos e num andar meio rebolado e um tanto forçado. Lembro dele andando pelas ruas com passos rápidos, sorrindo e acenando para todos. Sempre havia alguém metido a engraçadinho a soltar um gracejo para ele. Mas ele respondia numa boa. E até gostava que mexessem com ele. Fazia parte do jogo de cena.

Costumava usar umas calças compridas desta bem justa no corpo, blusa em cores berrantes e com a barriga de fora e calçava uns tamancos. Ou seja, era algo caricato aos nossos olhos provincianos. Mas os leitores hão de concordar. Alguém se vestir assim naqueles tempos era negócio para cabra muito macho não?

Não sei em que ele trabalhava. Parece-me que costurava. E também que era um filho muito dedicado e cuidava bem de sua mãe. Também não sei em que rua morava. Talvez para os lados da Freitas Cavalcante.

Bem os anos passaram. E na última visita que fiz à cidade perguntei por ele. Disseram-me que havia morrido. Não perguntei de que.

Meu primo Tadeu Mafra, fundador do Bloco do Pompeu, grupo onde homens, cabras-machos mesmos saem vestidos de mulher pelas ruas delmirenses, contou-me que nos últimos anos de vida do Zé-Mulher sempre o convidava para ser destaque do bloco. Uma justa homenagem.

E foi o meu primo quem me cedeu as fotos onde podemos ver este personagem delmirense. Pena que nas fotografias vê-se o Zé já um tanto cansado e abatido. No entanto nas minhas lembranças delmirenses ele sempre será recordado pela sua forma esfuziante de ser.


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postado por: <$César Tavares$> 3:43 PM



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